Professor da FGV vê uso político de tarifas dos EUA sobre o Brasil
Oliver Stuenkel afirma que exigências apresentadas pelos Estados Unidos nas negociações comerciais ultrapassam questões econômicas e alcançam temas políticos e institucionais.
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As negociações entre Brasil e Estados Unidos envolvendo tarifas comerciais ganharam uma dimensão política após a divulgação de exigências apresentadas pelo governo norte-americano. Na avaliação do professor de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV) Oliver Stuenkel, o governo de Donald Trump utiliza tarifas também para buscar objetivos que não estão diretamente relacionados ao comércio.
Segundo reportagem publicada pelo MeioNews, uma lista apresentada pelos Estados Unidos durante as negociações reúne 21 pontos, dos quais quatro tratam de temas políticos e institucionais brasileiros. Entre as demandas estavam referências às Eleições 2026 e à situação de pessoas descritas no documento como “dissidentes políticos”.
O governo brasileiro rejeitou essas propostas e sustentou que questões relacionadas ao Judiciário e à soberania nacional não fariam parte das negociações.
Para Stuenkel, a inclusão desses temas mostra que as tarifas estão sendo utilizadas como instrumento de pressão para além das relações comerciais.
“O governo Trump utiliza tarifas para atingir metas em áreas não relacionadas ao comércio”, afirmou o professor. Segundo ele, o documento “explicita claramente o desejo por parte dos Estados Unidos de interferir em assuntos internos”.
A avaliação sobre intenção política é de Stuenkel. Em atos oficiais anteriores relacionados ao Brasil, a Casa Branca justificou tarifas adicionais citando questões de segurança nacional, política externa e economia dos Estados Unidos.
Professor cita outros paísesStuenkel avalia que a estratégia não estaria restrita ao Brasil. Segundo ele, situações semelhantes foram observadas em outros países da América Latina.
“O que estamos vendo no caso brasileiro faz parte de um projeto que se aplica a toda a América Latina”, declarou.
O professor mencionou episódios envolvendo Argentina e Honduras para sustentar sua análise. Também citou pressões relacionadas a interesses econômicos e estratégicos no Peru e no Panamá.
Na avaliação de Stuenkel, parte da estratégia adotada pelo governo norte-americano consiste em apresentar publicamente demandas e observar quais delas podem avançar nas negociações.
“Existe uma percepção aqui em Washington de que o governo Trump tenta algumas coisas e vê o que cola”, afirmou o pesquisador.
O professor ressalvou que a pressão pública é, até o momento, a estratégia predominante, mas afirmou que não há garantia de que outras medidas não possam ser utilizadas posteriormente.