Polícia Civil do Piauí usa drones e IA para combater maus-tratos a animais

Novo protocolo criado em Parnaíba une tecnologia, perícia veterinária e monitoramento de violência doméstica para fortalecer investigações.

Por
5 Min

Polícia Civil do Piauí usa drones e IA para combater maus-tratos a animais
Foto: Reprodução

A Polícia Civil do Piauí, por meio do Núcleo de Apuração de Crimes Ambientais da Planície Litorânea (NACA), implantou um novo protocolo de investigação para combater crimes de maus-tratos contra animais. A iniciativa, desenvolvida em Parnaíba, utiliza drones, inteligência artificial, perícia veterinária especializada e integração com ações de proteção social para ampliar a eficácia das investigações.

A medida surge em meio ao aumento dos registros de maus-tratos no país. Dados do Conselho Nacional de Justiça apontam que o Brasil contabilizou 4.919 processos relacionados ao tema em 2025, um crescimento superior a 21% em comparação com os 4.057 casos registrados em 2024.

Segundo o delegado Renato Pinheiro, responsável pelo NACA, o objetivo é modernizar a coleta de provas e tornar as investigações mais precisas.

Drones e inteligência artificial reforçam fiscalização

Uma das principais novidades do protocolo é o uso de drones para monitorar áreas de difícil acesso e locais onde existam denúncias de maus-tratos.

As imagens captadas permitem identificar sinais como magreza extrema, ausência de abrigo adequado, falta de água e alimentação, além de condições precárias de higiene.

O procedimento também prevê a utilização de inteligência artificial para auxiliar na análise preliminar das imagens, ampliando a capacidade de identificação de possíveis situações de risco.

"Na prática, a gente sai daquela investigação baseada só no que o vizinho viu e passa para um monitoramento cirúrgico. Agora, a polícia usa drones e Inteligência Artificial para espiar quintais fechados e comprovar a caquexia ou o abandono antes mesmo de tocar a campainha", afirmou Renato Pinheiro.

Animais passam a ser tratados como vítimas

O delegado destacou ainda mudanças nos procedimentos adotados durante as investigações.

Segundo ele, o novo protocolo prevê atuação mais rápida em situações de flagrante e reconhece formalmente cães e gatos como vítimas dos crimes investigados.

"Outra mudança brutal é no procedimento cartorário: o agressor não recebe intimação para ser ouvido; ele sai preso em flagrante por crime de maior potencial ofensivo. Além disso, o cachorro ou gato deixa de ser tratado como objeto apreendido e entra no inquérito formalmente como a vítima do crime", explicou.

Perícia científica fortalece investigações

Outro diferencial do modelo é a adoção do chamado Modelo dos Cinco Domínios, metodologia internacional utilizada para avaliar o bem-estar animal.

O sistema analisa critérios como:

  • Nutrição;
  • Ambiente;
  • Saúde física;
  • Comportamento;
  • Estado mental.

De acordo com o delegado, a medida garante maior respaldo técnico para a atuação policial e para as decisões judiciais.

"A grande sacada desse modelo é blindar o trabalho da polícia com ciência e segurança jurídica. Hoje a perícia aplica o Modelo dos Cinco Domínios para avaliar o estado nutricional, físico e até a saúde mental do animal, gerando um laudo técnico para o juiz", destacou.

O protocolo também estabelece um fluxo emergencial para situações que representem risco iminente à vida do animal, permitindo respostas mais rápidas das autoridades.

Maus-tratos podem revelar violência doméstica

Além da proteção animal, o procedimento incorpora a chamada Teoria do Elo (Link Theory), metodologia utilizada internacionalmente para identificar possíveis conexões entre maus-tratos a animais e violência contra pessoas dentro do ambiente familiar.

Segundo dados divulgados pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, 71% dos agressores de animais também cometem violência contra seres humanos.

Com isso, durante as diligências, os policiais passam a observar possíveis sinais de agressões contra crianças, mulheres, idosos e pessoas com deficiência.

"Sabendo que quem maltrata um animal muitas vezes também agride a família, o policial agora usa a Teoria do Elo para checar se há crianças, mulheres ou idosos sofrendo violência doméstica oculta naquela casa", afirmou Renato Pinheiro.

Atendimento continua após o resgate

O protocolo também determina que os animais resgatados recebam atendimento veterinário imediato, transporte adequado e encaminhamento para abrigos, organizações parceiras e protetores cadastrados.

Segundo o delegado, a assistência não termina com a retirada do animal da situação de risco.

"A nossa resposta não acaba no resgate: o animal tem direito a transporte climatizado, atendimento imediato para dor e encaminhamento direto para abrigos e protetores que nós mesmos fiscalizamos", disse.

Modelo pode servir de referência nacional

Para os responsáveis pelo projeto, a principal inovação está na integração de tecnologia, inteligência artificial, perícia científica, proteção social e resposta jurídica em um único protocolo operacional.

Segundo Renato Pinheiro, embora existam iniciativas semelhantes em outras regiões do país, a combinação de todos esses recursos em um único procedimento torna a experiência do NACA pioneira no Brasil.

A expectativa da Polícia Civil é que o novo protocolo torne as investigações mais rápidas, técnicas e eficientes, ampliando a proteção aos animais e fortalecendo o combate aos crimes ambientais no litoral piauiense.


Notícias Relacionadas »